quinta-feira, 14 de maio de 2009

Poesia sem voz.

E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta, é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação. [Clarice Lispector]


***************************
Em estando completa e misteriosamente afônica, não poderia fazer um post sobre outra coisa. Falta-me voz e vez em muita coisa, falta-me fala em outras oportunidades, e sobra-me gritos em outras...Mas não é sobre nada disso que eu quero falar. Apesar de alguns médicos malucões atribuirem minha subita mudez forçada à extresse (eu tinha, inclusive, uma amiga adepta dessas modas de ser a naturalistas-praticamente-virando-vegetal, que dizia que dor de garganta era causada por algo que você queria dizer e não disse..bem, piscologismos e alquimias à parte...), eu prefiro simplesmente pensar que é mais uma das minhas muitas doenças misteriosas. Talvez eu estivesse precisando me calar um pouco, afastar-me um pouco do cenário global e analisar a situação de fora. Quem está de fora sempre vê melhor,certo? De qualquer maneira, a voz não me faz lá tanta falta... a voz, de fato, diz tão pouco. Principalmente num momento como esse, que não há ninguém para ouvir, e quando a "trajetória" supracitada percorrida pela minha voz era demasiadamente longa entre o coração, o pensamento e a boca para, no final, dar errado de qualquer maneira... Afinal, pedra e palavra lançada nunca retornam ao lugar. Cada palavra que dizemos está totalmente passível de interpretações diversas, sendo estas totalmente idiossincráticas.
É até bom poder (forçadamente, devo convir) calar-me um pouco e viver este momento mais introspectivo, absorvendo as informações bombardeadas na minha, nas nossas vidas diariamente. Acabei percebendo que quando me calo, ouço duas vezes mais (detalhadamente). Desmonto-me de pré----conceitos formados, que muitas vezes acreditava nem ter. Descubro novas faces (ocultas?!) das mesmas velhas pessoas, e descubro os mesmos velhos sentimentos novamente renovados. Respeitando a morfologia humana, temos dois ouvidos e apenas uma boca, portanto, deveríamos escutar mais do que falar. Todavia, sabemos bem, não é bem assim que os fatos se procedem... Deste modo, quando me vejo obrigada a respeitar esta anatomia começo a me questionar se não deveria adotar isto mais profunda e frequentemente em minha vida...ou se seria melhor simplesmente continuar mascarando as coisas com rajadas de palavras.

Inclusive, ao viver este momento introspectivo forçado, acabo deparando-me com o mesmo dilema de sempre: gastronomia ou jornalismo? Diversos pensamentos passaram pela minha cabeça, especialmente após alguns fatos presenciados hoje que muito me trouxeram desgosto não pela gastronomia, mas pelas pessoas que trabalham nela. Cheguei, inclusive, a decidir pela mais difícil e, segundo a imortal Lispector, mais sagrada das escolhas que possivelmente enfrentaremos em nossas vidas: a desistência. Seria gastronomia um descaminho, Lispector? Veio-me, então, uma "revelação lispectoriana" e cheguei a conclusão que desistir sim era o descaminho, e que ambas as escolhas poderiam andar de mãos dadas, co-existindo, fingindo que não são conflitantes em termos tantos... Farei o vestibular novamente este ano. Com certeza não passarei em 3º lugar novamente, ainda mais com essa abrupta mudança nesta ridícula prova (de mediocridade..ops, de ensino mérdio...ops, médio!). De qualquer maneira, tenho minhas provas, meus seminários, projetos, eventos, compromissos e ainda por cima o trabalho de mil horas por dia...portanto, não terei tanto tempo para dedicar-me aos estudos retrocedentes...todavia, tentarei. À título de curiosidade, suponho. Ano passado, ao saber da baixíssima média de jornalismo, automaticamente meus olhos encheram-se de lágrimas, e minha alma de vergonha. Quanto medo existe em minha alma? Medo tanto que me fez preferir a não-tentativa ao fracasso. Tenho, portanto, que transpor essa barreira interna e, nem que seja apenas para ver que eu estava certa e incapaz, simplesmente T E N T A R.

Planos são planos, vontades são vontades.

De qualquer maneira, desejo-lhes uma boa noite (na verdade já é dia...) do fundo de minha (medrosa) alma, visto que a boca não conseguirá exprimir mais que uns gemidos incompreensíveis...

Maldita rouquidão inexplicável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário