sábado, 2 de maio de 2009

E se a alma for pequena?

Até que ponto algo vale a pena? Até que ponto nossos sonhos são menos importantes que nossas finanças? Em que horizonte encontramos a verdade existente nesse mistério; o que é mais importante: amor ou dinheiro?
Amamos o dinheiro? Temos dinheiro quando amamos o que fazemos?
Quem poderá garantir? A socidade de hoje é simplesmente desigual demais para que possamos descansar, seguros que fazendo o que gostamos poderemos oferecer uma vida digna àqueles que amamos. A quem amar mais? Ao que espera em casa pela nossa provisão, ou a nós mesmos, fazendo aquilo que nosso coração acha valioso?
Até que ponto vale a pena aguentar pressões mil por um objetivo, mesmo que distante e impalpável?
Se é verdade que amor não enxe barriga, como amar o que a enxe?
Hoje me vejo cada dia mais presa numa cadeia infinda de mediocridade... não consigo achar a saída, e cada vez me vejo mais perdida nesse labirinto. Continuar, ou desistir? Todos os dias essa pergunta martiriza-me, mas quando terei a resposta? Às vezes acho que são apenas palavras jogadas ao vento, sem valor e sem resposta.
Arrependimento e medo são sentimentos-fantasmas que seguem essa pergunta, constituindo-se, assim, numa trilogia assustadora. Que diferença estarei eu fazendo na sociedade cursando gastronomia? Todavia, de que vale a pena tentar fazer diferente numa sociedade doentia e indiferente? Porque apenas jornalismo poderia oferecer-me isso? E ademais, porque querer tanto salvar uma sociedade, sabendo que, ao tentar faze-lo, perder-me-ei nela, deixando a desejar aos que ainda guardam por mim algum sentimento válido.
Eu desisti de jornalismo por um ideal, ou por medo? Eu desistiria de gastronomia por um ideal, ou por medo?
O que é mais importante para mim? Dar comida a minha (futura) família, com tranquilidade, ou realizar-me numa profissão dura e pouco reconhecida? Se eu mau conheço esse campo, porque essa obsessão com esta profissão?
Sobretudo, que tipo de sociedade doentia é essa? Porque eu tenho que me adequar à mediocridade dela, adaptando e castrando meus sonhos para que caibam no bolso da sociedade. Ah, Jesus, porque meu sonho não é rentável? Porque temos que moldar nossos sonhos ao que a sociedade oferece? Porque ela oferece tão pouco!?
Vejo meus sonhos escorrerem por entre meus dedos e eu, atonita, sem poder fazer nada. Continuo na inércia da vida, esperando que algo me acorde, ou me jogue ao chão - não que isso vá fazer alguma diferença. Onde está meu grito de alerta, meu grito de socorro? Porque devo, quando estou no ''berço da intelectualidade'' que DEVERIA ser a faculdade, calar-me para qualquer irregularidade, quase que numa ditadura... Oprime-nos uma força amorfa... como pode existir tanto temor? Medimos nossos passos calculando perseguições dignas do tempo medieval, calando nossos peitos, ignorando nossas lágrimas. Entramos no reino da falta de respeito, coadunamos com a castração de nossos próprios sonhos.
Ou apenas eu tenho sonhos? Será que apenas eu vejo isso?
As irregularidades, desrespeitos e o gritante descaso que me deparo todos os dias nessa instituição de ''ensino'' apenas reflete o descaso do governo de uma forma geral... como podemos viver alienadamente numa sociedade assim?
Quantas vezes mais minha esperança será posta a prova? Quantas vezes mais ouvirei meu coração quebrantar-se irreversivelmente? Mas o mundo não espera que eu o conserte...E eu sempre o conserto.
Vejo minha vontade de aprender, minha ânsia por conhecimento se desperdiçando com conhecimentos triviais, com tutores indiferentes, com colegas acomodados...
Vejo meu ser sensível metamorfoseando-se em pedra... a quanto tempo não me permito chorar em versos? A quanto tempo penso e esforço-me apenas para áreas exatas, a química e a biologia da gastronomia...esperando que, talvez, nessa área eu adquira algum conhecimento...já que minha esperança com o lado sociológico da gastronomia já se foi amordaçado e morto pela instituição que deveria fomenta-la. Não que eu não goste de biologia ou química, mas porque não existe ninguém que possa compartilhar comigo a visão da gastronomia como uma consequência cultural? Mas isso também não quer dizer que eu encontre milhares de pessoas com as quais eu possa manter uma conversa longa sobre as propriedades organolépticas, físico-química dos alimentos...porque também não econtro pessoas capacitadas. Algumas poucas que ainda me dão algum lampejo de alegria. E, outrossim, encontro-as pisoteadas e oprimidas pela mediocridade dos, ditos, profissionais da área na minha cidade. Há esperança para o Recife?
Então é isso, cozinhar meus sonhos.
Espero que sejam gostosos (para alguém).

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