Há meses esse texto lateja em minha cabeça, clamando tempo para nascer. Nas "férias" (entre aspas pois isto, para mim, é apenas força de expressão: trabalhei 2x mais, me envolvi em projetos e cursos da faculdade,e ainda procurei certo tempo para viver) fiz um curso de BPF - SENAI (tradução: boas práticas de fabricação, desenvolvido pela colaboradora so SENAI). Este curso, de 1 semana, me habilitou a ser uma "facilitadora", como eles chamam. Ou seja, passei algumas horas sentada numa sala, com outros perdidos como eu, ouvindo uma moça falar tudo aquilo que já tínhamos, em alguma etapa de nossas vidas, ouvindo. Fico me questionando como o curso foi para os demais..afinal,sou apenas do terceiro período, e fui colega de sala,naquele momento, de formandos...
Enfim. Somos facilitadores. Está lá o certificado pra comprovar.
Destaquei essa palavra pois é dela que quero falar.
Certa vez li em um livro, cujo autor não vou me lembrar agora (está entre Millôr, Veríssimo e Jabour) que o Brasil precisava desses certificados de incompetência. Sim, pois se trabalhássemos direito, não haveria necessidade de certificado algum, para provar nada. Pois temos cada vez mais certificados,e cada vez menos qualidade.
Isto ficou claramente exemplificado para mim qd a facilitadora-mor, que, ora, nos lecionava, disse que havia um POP (procedimento operacional) para se fazer um POP. Acredita? Ou seja, temos um relatório de como se faz um relatório, evitando que as pessoas "se percam". Sim, pois a explicação dada foi que este era um mecanismo facilitador (demasiadamente repetida esta palavra durante o curso...) do trabalho do higienista. Cara, é um mecanismo para que seu cérebro não seja mais requisitado em serviço ALGUM. Vc não precisa mais pensar, porque pensar dá trabalho: apenas repita esta trabalho, acenando como um calango e anotando como um robô...mas quando for necessário falar, imite um papagaio!
E essa degradação da mente humana não é meu tópico esta noite. Quero externar minha indgnação quanto a esse mecanismo vicioso que é o "certificismo" brasileiro.
Vc pode ser tudo,mas se não há um papel provando, esqueça! Vc pode ter estudado onde quer que seja, Harvard ou Coleginho ZéMaria, se não há papel,não há nada. Sua palavra,suas conquistas e suas capacidades são apenas nomes vãos se não há um papel que os comprove.
Seu nome não é nome.
Se, de fato, trabalhássemos direito, qual seria a necessidade do ISO 22000, ou 9001, ou o próprio 9000? Qual seria o porquê do IMETRO e tantos outros órgãos que atestam a incompetência do brasileiro? Se a honestidade falasse mais alto que a ganância, nada disso seria necessário.O fabricante de briquedo não iria fabricar carrinhos que, ao menor toque, quebrassem em mil pedaços colocando a vida da criança em risco. O manipulador de alimentos lavaria a mão depois de ir ao banheiro, independente do MBPF,MBPM,POP,IT ou escambau a quatro. A honestidade e dignidade seriam todos esses certificados. A sua consciência certificaria, e isso seria confiável. Pois hoje não podemos confiar na consciência de outrem, entrando, inexoravelmente, nesse ciclo vicioso de papéis que comprovam papéis, e você é apenas o nome que consta nos autos. E esse ciclo se amplia, ficando de uma magnitude inimaginável. Quantos alunos não vão às palestras porque receberão certificados? O que eles irão adquirir em relação aos conhecimentos não importa, importa o certificado. E assim seguimos criando ISOS que determinam ISOS, e manuais que tratam de manuais.
E você?Você não é nada.
Seu papel é.
Diga-me que papéis tens, e eu te direi quem és.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
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