quinta-feira, 18 de junho de 2009

E, pra ser turismólogo,só precisa ir à praia!

O plenário do STF decidiu ontem, por 8 votos a 1 (e eu gostaria bastante de saber quem foi essa única viva alma sensata!), que a obrigatoriedade do diploma para jornalista era inconstitucional. Os ministros do STF aceitaram o recurso interposto pelo Sertesp (Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo) e Ministério Público Federal contra a obrigatoriedade do diploma. Para o STF, a profissão de jornalista não exige nenhum saber específico. E, tendo em vista que apenas ''profissões que têm necessidade de saberes científicos'' carecem de estudos acadêmicos, como faculdades e afins, e, portanto, a obtenção de diploma.
O ministro Celso de Mello, preconceituosamente disse, crente que estava levantando a maior bandeira de defesa aos trabalhadores da face da terra, as seguintes belas palavras:
"Existem leis que regulam de maneira abusiva as profissões. É preciso ter consciência que a Constituição estabelece que a regulamentação do Estado deve ocorrer em profissões que exijam saber cientifico específico e não para aquelas que são baseadas na intelectualidade". Não obstante, ele resolveu desrespeitar todas as profissões possíveis, com a brilhante citação: "Todas as profissões são dignas, mas há uma Constituição que precisa ser observada e impõe limites".
Durante o julgamento, o presidente do STF comparou jornalistas com cozinheiros. "Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área".
Bem, eu poderia simplesmente levar tudo isso como ofensas pessoais...já que o cara conseguiu, em uma única frase, desmerecer minhas duas paixões: o jornalismo e a gastronomia. Claro, escrever e cozinhar são, também, paixões. Mas ambas as áreas são MUITO mais que, simplesmente, esses dois verbos. E só sendo mesmo muito superficial e insolene para acreditar que essas profissões e, consequentemente essas vastas áreas, se resumem a apenas isto!
Ou eu poderia apenas desejar que da próxima vez que o querido ministro fosse a um restaurante ele comesse alguma iguaria preparada pela mão de um auto-didata qualquer, que não tivesse a menor idéia do que é a Reação de Millard e os compostos cancerígenos, os derivados de benzeno e anéis aromáticos formados nela, que nem soubesse o que é um Rearranjo de Amadori, ou não fizesse idéia do que é uma Cocção com preservação dos quantitativos protéicos da carne, nem o que é, como acontece e o que resulta uma caramelização, o que são açúcares redutores e açúcares invertidos e quais suas finalidades... nem mesmo soubesse o que é um corte Brunoise ou uma cocção en ragout... E, tivesse, então, uma baita indigestão e nunca conseguisse suprir totalmente sua necessidade nutricional e sofresse o resto da vida de fome oculta, culminando numa anemia crônica!
Mas, claro, não vou fazer isso.
Eu poderia também convidá-lo a estudar comigo para uma das minhas provas de Química Culinária, ou Bioquímica...ou mesmo as infindas técnincas de cocção, corte e preparo que aprendemos, sei lá, em cozinha fria. Isso sem falar da parte prática da coisa mesmo, como passar 15h em pé no calor e no stress de uma cozinha.
Claro, poderia da mesma forma, convidá-lo para estudar para as provas que meu irmão, acadêmico de Jornalismo, prestes a se formar, faz.
Mas não...
Eu apenas quero desabafar!
Nunca vi, em toda história, um retrocesso como este. Voltamos ao século XIX! Lógico, nesta época tinhamos excelentes jornalistas, como Machado de Assis..e basicamente todos os imortais da literatura. Contudo, nossos imortais contemporâneos têm a qualidade (?) de um Paulo Coelho. Isso são os imortais da literatura!Imagina o que não vai sair dos jornalistas de prática?
Claro que,como em TODA profissão - mesmo as mais científicas, teóricas e acadêmicas - a prática é fundamental para a consolidação do profissional. Pois um bom profissional é sempre constituido de uma boa formação e junção de teoria e prática, que são partes concomitantes e que se completam e se necessitam de uma profissão, e não partes paralelas e independentes,como roga o STJ!
Quanto não se lutou para se regulamentar a profissão de jornalista? Que desrespeito! O autor dessa lei achou que os estudantes de jornalismo faziam o que na faculdade durante 4 anos?
É um absurdo que em pleno século XXI, onde existe a clara tendência de tornar ocupações empíricas em ensino superior, como dança, cinema, artes plásticas, economia doméstica, gastronomia, engenharia de pesca, oceanografia, etc; dar um passo retrógrado como este. Claro que todas as profissões têm suas origens no empirismo e, conseguinte, observou-se a necessidade de estuda-la a fundo, ressaltando teorias já existentes de outras matérias, tendo em vista que o conhecimento não é um bloco isolado. Assim,as profissões foram se consolidando. O estudo é exatamente isto: estudar o que acontece na vida real, entender aquilo a fundo. Digo pela minha profissão,não há,na vida prática, área com mais química presente que na cozinha. Mas, se ninguém tivesse atinado de estudar as reações químicas que acontecem ali, o que seria da nossa saúde? E isso dizendo apenas a parte química da coisa, pois a parte humana seria um post a parte! Só para situar-nos, a maior parte de obra de pessoas como GILBERTO FREYRE se baseou no estudo sociológico da comida e da alimentação como consequência cultural.
Nunca vi tamanho derspeito a uma classe inteira e, obviamente, tamanho retrocesso para a sociedade como um todo.
O que virá depois? Que tipo de incentivo esses homens deram à profissões que estão surgindo agora como profissões de nível superior, como dança, gastronomia e cinema, para lutarem por sua sindicalização e regulamentação?
Claro, não nego que a melhor pessoa para falar de Português é um linguísta...que a melhor pessoa para falar de peixes é um engenheiro de pesca, ou um biólogo...e que a melhor pessoa para falar de gastronomia é um gastronômo...mas a melhor pessoa para comunicar é o jornalista! Se uma pessoa, como eu, quissesse fazer, por exemplo, mídia gastronômica, jornalisto gastronômico, ela tinha por obrigação que ter as duas formações: gastrônomo e jornalista.
Não acho errado, contudo, uma pessoa renomada ser convidada por um jornal a ser colunista, ou comentarista...mas claro que desaprovo que uma pessoa que não tem a formação exerca profissão, seja ela qual for!
Não só pela questão de incentivo ao estudo que, na minha opnião, é obrigação dos governantes. Mas também por outras muitas questões. Para ser sintética, se não existisse necessidade do estudo acadêmico desta ciência,não haveria faculdade da mesma! E se há faculdade, é porque é necessário e a pessoa que fez esta faculdade merece mais credibilidade e confiança que os outros, auto-didatas. Isso para qualquer profissão!!!!
Diante de tamanho retrocesso no nosso país, eu só posso me questionar qual o tipo de profissional que o Brasil está formando.

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