
Você já viu uma criança descobrindo seu próprio pé?
"Como assim descobrindo o pé? Que ridículo", você deve estar pensando. Sim, mas elas, de fato, descobrem o pé - ou não e eu simplesmente gosto de pensar que elas o fazem..nunca saberemos.
Mas o fato é que é um momento único! Emocionante para o observador atento. Acho que já chorei acompanhando a descoberta de mais um pé. Se você nunca viu, devia tentar. Equivale a meses de terapia! É aquele momento mágico em que a criança, no auge do seu desequilíbrio, mais ou menos quando ela nota que aquela grande coberta branca e fofinha que colocaram em suas calças não vai permiti-lá de sentar-se corretamente, e desiste de assim o fazer, ela, de repente, se depara com um amuntuado de carne, com umas pontinhas engraçadas, que pode ou não estar coberto por um pano. Este é seu pé.
Ela, normalmente, faz algum movimento com a cabeça (afasta, inclina...enfim, demonstra interesse e espanto ingênuo, diferente do nosso espanto covarde!) e então (diferentemente de nós) parte à luta! Vai descobrir que coisa é aquela que se encontra tão perto do seu reconhecido corpinho. Até que as pontinhas do bolinho de carne se movem. E de novo. E de novo! Seus dedinhos das mãos tocam aquelas pontinhas. Até que eles se parecem. As duas pontinhas - da mão e do pé - se movem, se tocam, se conhecem. E, finalmente, depois de alguns minutos analizando seu próprio (e desconhecido) pé, ela percebe que aquelas pontinhas se movimentam quando ela quer, e que aquele amuntuado de carne lhe passa sensações. Que sensações serão essas? Sem receios, ela leva o pé à boca (diversão que lhe acompanhará enquanto sua flexibilidade lhe permitir, a partir deste momento...confesse,velhaco,você morre de inveja dessa flexibilidade!Você que mau consegue atacar seus cadarços!hahaha), acaricia seu pé e é acariciada por ele. Ela namora longamente seu pé. Seus olhos estão maravilhados com sua nova descoberta que, drummondianamente, inunda, com sua poesia, a vida inteira dela! Ela olha para os lados, ávida para contar aos que a rodeiam sua grande novidade. Ela gritaria ao mundo, se falar soubesse! Além desse pequeno percalço, ela nota que as pessoas grandes estão ocupadas demais com outras coisas menos importantes do que a descoberta do seu pé. Mas de que importa? Ela descobriu seu pé! Que maravilha de mundo, que mundo mais perfeito para se ter um pé - e um pé que você mesmo descobriu! Nada,nada no mundo, paga este momento. Para um observador atento - alguns diriam bobo,outros, desocupado - a felicidade refletida naqueles olhos é quase a mega sena (como diria o pequeno príncipe: ponha em números que os adultos entendem...hahahaha)
Há quanto tempo você não descobre seu pé? Porque na sociedade de hoje ninguém mais tem tempo para descobrir seus próprios pés? Essas pequenas (grandes!!!!!!!) alegrias que existem - latentes! - na vida, esperam apenas por uma oportunidade de desabroxar...
E todos enfiam os pés nos saltos da moda, nos tênis de corrida - correndo pra emagrecer...correndo de que?. E em último caso, amputamos os pés.
E perdemos a maravilhosa, e gratuita, alegria de descobrirmos os nossos pés. Ou mesmos de observarmos a descoberta de um novo pé, alheio - e, ao fazermos, estarmos alheios aos pés apressados que pisam em nos...sas ruas.
E dói! Dói para nós, descobridores diários de pés, observadores atentos-bobos-desocupados. Dói para nós, pés a serem descobertos.
Que tal agora você sair e descobrir um pé?
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